Archive for the ‘História do Sexo’ Category

Entre veludos & perversões: o sexo doentio.

novembro 3, 2007

gillesderaisjulgamento.jpg

Deixe-me contar a vocês a história do nobre francês Gilles de Rais (1404 – 1440 ~ pronuncia-se ‘Guíl dã Ré’), contemporâneo e brother-in-arms da Donzela de Orleans, a famosa Joana D’Arc. Serviu a França como um guerreiro devoto, tendo sido um importante personagem para impedir que o país fosse derrotado na Guerra dos Cem Anos. Ele poderia ser mais um incluído no hall dos heróis nacionais, mas não é. Por quê?
Gilles de Rais é também considerado um dos primeiros serial killers da história, acusado de seqüestrar, torturar, mutilar, estuprar e por fim assassinar diversas crianças – em especial belos meninos plebeus. Reza a lenda que o próprio Rais confessou estes crimes sob ameaça de tortura, mas a história jamais explicou direito se ele seria realmente esse monstro, ou apenas um nobre que cruzou o caminho de quem não devia, tendo seu nome eternamente manchado na história. Tamanha a mancha, que diz-se ter sido ele a inspiração do temível personagem Barba Azul, que matava suas esposas pouco tempo depois do casamento.

Do que sabe da história do maníaco, é que muito cedo ele perdeu os pais, tendo sido então criado por seu avô, Jean d’Craon, homem esperto e sem escrúpulos. A primeira lição que Jean ensinou para o seu neto foi que ele, como herdeiro da segunda maior fortuna da França, estava acima da lei. Ou seja, ele começou sua educação sem rédeas nem relho que o impedissem de realizar qualquer capricho. A segunda lição de seu avô foi a arte da guerra, que o transformou num excelente guerreiro.
Mas, a mesma vida guerreira que o colocou em destaque (ele foi conselheiro de Joana D’Arc, para depois abandoná-la quando foi ‘vendida’ ao ingleses), fez com que ele ganhasse diversos inimigos políticos. Seu avô, em seu leito de morte, estava arrependido do montro que havia criado, e doou várias de suas terras e riquezas aos pobres, além de entregar a espada da família para o irmão mais jovem de Gilles, Rene de Rais.
Humilhado publicamente por ter sido denegado em favor de seu irmão, sem mais a sobra de seu avô para vigiá-lo e afastado dos seus serviços militares, Gilles pode então mergulhar cada vez mais fundo em sua decadência.

A vida calma de soldado aposentado não era para ele; Gilles havia crescido na violência e na matança da guerra, e não apenas isso, em muitos momentos a própria sociedade em que ele viveu legitimou e honrou tais atos. Assim que ‘beixou a poeira’, ele precisou de uma nova via para satisfazer a sua própria psicopatia, que havia sido alimentada com um baixíssimo autocontrole e a brutalidade da vida no exército. Pelo ano de 1432-1433, os assassinatos começaram.
Etienne Corrillaut, cúmplice de Gilles em diversos crimes, narra que o nobre mandou seqüestrarem um menino de 12 anos. Depois, vestiu-o da melhor maneira, deu-lhe uma refeição de príncipe, acompanhada de um estimulante chamado hipocras (vinho tinto com gengibre, cravo, canela e açúcar). Depois de toda a opulência, ele levou o menino até uma sala, onde finamente a criança se deu conta do que o aguardava. Aí o que se seguiu foi uma série de horrores, incluíndo mais de um estupro e, por fim, a morte.
Gilles de Rais dificilmente mantia uma criança por mais de uma noite, e muita vezes transava com ela após ferí-las mortalmente ou até mesmo quando já estavam mortas. Por vezes masturbava-se sobre o cadáver, gozava sobre os orgãos expostos da vítima e ria. Embora algumas pessoas já soubessem de suas perversões, Gilles, já enloquecido completamente, só foi preso e condenado quando ele decidiu seqüestrar um padre. Afinal, crianças pobres são crianças pobres – mas o padre, ah, o padre é a mão de Deus. Não dá pra deixar esse representante divino nas mãos de um Hannibal sexual.

Mas enfim…sei que essa história deve ter deixado você se sentindo um pouquinho enjoado. Mas pessoas satisfazendo as mais variadas depravações sexuais não são exatamente figuras raras. Estupradores, pedófilos, seqüestradores que abusam de suas vítimas antes de matá-las, pessoas que só sentem prazer às custas da dor e da humilhação do outro.
Esse lado perverso da sexualidade é conhecido e talvez algum pedacinho dele – claro, não tão extremado e dantesco quanto em Gilles de Rais – esteja na fantasia de pessoas ‘sãs’. Mas é lá que devem ficar: na fantasia. Porque quando vazam para a realidade, fazem com que a sexualidade machuque os outros, e seja novamente acusada de ser um pecado, uma doença. E mais uma vez, ela é confinada no limbo da repressão e da incompreensão, por causa da loucura de alguns e do silêncio de outros. E essa repressão despertará a semente da depravação em alguns e…e assim continua. O circulo vicioso de uma sexualidade mal-aceita e deformada.

Leia mais:
Wikipedia
Gilles de Rais

Sexo Jornalístico

setembro 27, 2007

Esse texto foi um editorial escrito por quatro elementos deste blog (Dani, Alê, Vander, Mari) para a cadeira de Redação Jornalística III. Só que a opinião geral foi de que ele parece mais um artigo. Leia e decida-se sobre esse nosso texto com crise de identidade (sexual?).

-=-=-=-=-

BASTA!

Não é possível conceber a existência de qualquer forma viva sem a existência de uma sexualidade. Central na vida de qualquer espécie, não faltam exemplos de como o sexo levou a humanidade também a estruturar redes sociais em que o ato sexual – ou a ausência dele – definiria papéis, seria sinônimo de prestígio e se carregaria de valores simbólicos. O celibato, que marca e legitima iniciados de diversas práticas religiosas, assim como o casamento, que avaliza uma relação como estável perante a sociedade e até mesmo lhe bonifica com direitos legais; são apenas alguns índices de que, explicitamente ou não, a sexualidade está caracterizando maneiras como a sociedade organizada se estrutura. Até mesmo o comércio sexual em sua encarnação midiática – a pornografia -, não só faz circular bilhões de dólares pelo mundo, como também foi fundamental na organização de redes de distribuição e produção de produtos culturais em VHS e DVD como um todo. Processo semelhante está acontecendo agora, em que a indústria pornográfica está fazendo avançar as linguagens e tecnologias para a convergência tecnológica entre mídias tradicionais e mídias móveis.

Se por um lado, então, é possível encontrar o sexo agregado à sociedade humana de maneira intensa e organizada, em outro extremo farejamos um conservadorismo que relega certas posturas ao simples descaso ou marginalização. A morosidade em discutir a união civil entre pessoas do mesmo sexo e a falta de políticas públicas a respeito da prostituição, são casos exemplares de que o Estado, assim como muitos dos seus próprios cidadãos que representa, não consegue encarar de frente temas relacionados à sexualidade. É a repressão do instinto sexual institucionalizada.

A homossexualidade não pode mais ser encarada como uma aberração. O respeito às diferenças é fundamental para o bom andamento da sociedade, até porque já está bem claro que sexualidade não é uma opção, mas sim uma questão inconsciente, que independe da vontade do indivíduo. Dentro do que entendemos por identidade sexual há uma gama enorme de variantes. Longe de fazer uma classificação sexual dos indivíduos, as variantes sexuais reforçam a idéia de que conceitos como “normal”, “natural” e “patologia” são falácias convencionadas socialmente.

Em relação à prostituição, o moralismo também impera. O Código Penal brasileiro não aborda a atividade, mas sim o lenocínio que consiste em favorecer, induzir ou tirar proveito da prostituição alheia, além de considerar “crime contra os costumes” manter casas de prostituição. Primeiramente, deveria se considerar o motivo que levam pessoas, em especial mulheres, a se prostituírem. Normalmente é a falta de condições adequadas de vida. Somente combatendo-se as raízes do problema, poderia dar-se o fim a prostituição; medidas e leis impostas não acabarão com a aquela que é a ‘mais antiga das profissões’. Uma vez que não há como resolver todos os problemas-chave que levam alguém a vender seu corpo como forma de sustento, é melhor que se regularize a profissão, aceitando-a ao invés de jogá-la na marginalidade.

O sexo é, ao mesmo tempo, um assunto central e um tabu. A maneira como a sociedade aborda as sexualidades costuma a vacilar entre extremos de vulgarização e puritanismo doentio. Não há uma abordagem natural das diferenças, do que é o sexo, como parte da natureza humana. Enquanto não houver uma aceitação desse tema, em suas mais diferentes faces, os assuntos mais polêmicos, tal qual os abordados neste texto, continuarão sendo descriminados, mitificados e relegados a discussões discretas em grupos ‘alternativos.’ Dizemos BASTA! a essa postura hipócrita. Afinal, se podemos ir ao uma festa e dançar ao som de ‘Tchutchuca’ e outras músicas vulgares, porque não podemos aceitar e discutir o sexo como algo normal?

“Amores, guerras e sexualidade, 1914-1945”.

setembro 25, 2007

 

Datas que marcaram a nossa História.
Sentimentos que tomam conta do nosso espírito, independentemente de quaisquer vontades.
Acontecimentos sangrentos, cruéis e lamentáveis.
Instintos…

Isso é parte do que poderíamos encontrar se, algum dia, pudéssemos abrir o livro de receitas do Museu do Exército francês. Lançando mão desses ingredientes e temperos, a instituição mostrou sensibilidade e está promovendo um evento que veio para marcar os dias recentes da Cidade Luz. Mesmo guardadas na memória histórias da carnificina vivida durante as duas Grandes Guerras, ainda assim podemos olhar para trás e enxergar um mundo em cores, onde impera o que é vivo; onde o que é diferente é aceito; e onde ser apenas humano é o mais belo. A exposição “Amores, guerras e sexualidade, 1914-1945” apoia-se exatamente nesse ponto. Ela retrata os dois maiores conflitos armados até hoje vistos sob outro prisma: as guerras não mais são somente o lugar da morte e dos desastres. Mais do que isso. Elas, como nas palavras dos organizadores do evento, “não suspendem a vontade dos seres humanos de amar e serem amados”. Na verdade, “essa necessidade de amar se expressa com mais intensidade quando se vive em uma época de incertezas e se sente dramaticamente a presença do sofrimento e da morte”.

Relatos históricos, documentos e fotografias expostos trazem amor, declarações apaixonadas e, claro, sexo, erotismo e fantasmas sexuais. Se vê nas enfermeiras não apenas a grandiosidade de quem tenta salvar vidas, mas também a mulher que floriu com os moldes de seu corpo os campos de batalha. O Homem não só mata. Ele, como nunca, dá e recebe afeto. Há materiais inclusive de casais gays. (veja só!) O fogo cruzado não foi suficiente para inibir a ousadia e sexualidade feminina: a fotógrafa Lee Miller, que foi correspondente de guerra, tem, por exemplo, uma foto exposta na qual está nua na banheira de Hitler, o Füher.

Bom… Está certo que boa parte dos que aqui se aventuraram não terão a chance de ver de perto esse belo evento. Mas, tenho certeza, fica uma lição: vamos valorizar o que é humano, natural, já que ele, com certeza, pode, inclusive, revelar o sexual, o erótico. ;D

Obs.: A exposição vai até 31 de dezembro