Me traz teu amor – parte 1 de 3

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Eles me sacanearam. Mas agora é minha vez. A primeira das três partes de Bring me your love, conto de Charles Bukowski inédito no Brasil, com ilustrações de Robert Crumb. Tradução deste modesto servo que voz fala. Papa fina:

Me traz teu amor

Harry desceu as escadas e deu no jardim. Vários pacientes estavam lá fora. Disseram para ele que sua esposa, Gloria, estava lá. Ele a viu sentada sozinha em uma mesa. Ele se aproximou obliquamente, para um lado e um pouco para o fundo. Ele circundou a mesa e sentou tranversalmente abaixo dela. Gloria sentou bem reta, estava bem pálida. Ela olhou para ele mas não o viu. Então viu:

“Você é o condutor?”

“Condutor do quê?”

“Condutor da verossimilhança”

“Não, não sou.”

Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, azul pálido.

“Como você está, Gloria?”

Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa que duraria séculos. Havia uma pequeno vaso de flores no centro, flores murchas mortas, penduradas pela tristeza, talos moles.

“Você é um putanheiro, Harry. Você come putas.”

“Isso não é verdade. Gloria.”

“Elas te chupam também? Elas chupam teu pau?”

“Eu ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ficou mal com a gripe.”

“A morcega velha está sempre mal com alguma coisa… Você é o condutor?”

Os outros pacientes sentaram nas mesas ou se escoraram nas árvores ou se esticaram no gramado. Estavam imóveis e silenciosos.

“Como é a comida aqui? Você tem amigos?”

“Péssima. E não. Putanheiro.”

“Você quer alguma coisa pra ler? Quer que eu traga alguma coisa pra ler?”

Gloria não respondeu. Ela então levantou sua mãe direita, olhou para ela, cerrou o punho e socou ela mesma direto no nariz, forte. Harry levantou-se e agarrou ambas as mãos dela. “Gloria, por favor!”

Ela começou a chorar. “Por que você não me traz uns chocolates?”

“Gloria, você me disse que odiava chocolate.”

Suas lágrimas rolaram profusamente. “Eu não odeio chocolate! Eu adoro chocolate!”

“Não chora, Gloria, por favor… Eu vou trazer chocolates, o que você quiser… Escuta, eu aluguei um quarto de hotel a umas duas quadras daqui, só pra ficar perto de você.”

Seus olhos pálidos se dilataram. “Um quarto de hotel: você está lá com alguma vadia. Vocês assistem a filmes pornôs juntos, e tem um espelho enorme no teto!”

“Eu vou estar aqui por uns dias, Gloria,” Harry diz suavemente. “Eu vou trazer tudo o que você quiser”

Me traz teu amor, então,” ela gritou. “Por que caralho você não me traz teu amor?

Alguns pacientes se viraram e olharam.

“Você quer me trazer chocolates? Bem, enfia eles no tu cu.”

Harry tirou um cartão da sua carteira. Era do hotel. Ele entregou a ela.

“Eu só quero te dar isso antes que eu esqueça. Você tem permissão pra ligar pra fora? Me liga se você precisar de qualquer coisa.”

Gloria não respondeu. Ele pegou o cartão e guardou em uma coisinha retangular. Ela então se curvou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão no sapato e calçou o sapato novamente.

Então Harry avistou o Dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O Dr. Jensen veio caminhando sorridente e dizendo, “Muito bem, muito bem, muito bem…”

“Olá, Dr. Jensen.” Gloria falou sem emoção.

“Posso sentar?” perguntou o doutor.

“Certamente,” disse Gloria.

Continua aqui

Uma resposta to “Me traz teu amor – parte 1 de 3”

  1. PD Says:

    Tinha que ser do velho Buk!

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