Kaddish para Allen Ginsberg

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Volta e meia encontro com alguma coisa que – pah – me faz voltar a Allen Ginsberg. E assim faço, e o devoro por horas e horas, como aconteceu nesse domingo. A impulso de publicar aqui alguma coisa sua foi tão gigantesco que saí imediatamente procurando desculpas. Não demorou nada e encontrei: ontem o mundo fechou onze anos sem Ginsberg. Segue nossa homenagem, poema resultado das vivências com Neal Cassady, o mais macho e inflamável de todos os beats, e que mesmo assim foi imediatamente seduzido pelo poeta. Uma semana e uma vida inteira com muita poesia a todos:

Poema de amor sobre um tema de Whitman

Entrarei silencioso no quarto de dormir e me deitarei entre noivo e noiva,

esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto,

braços pousados sobre os olhos na escuridão,

afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei sua pele

e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e abrirei e mostrarei seu traseiro,

pernas erguidas e dobradas para receber, caralho atormentado na escuridão, atacando

levantado do buraco até a cabeça pulsante,

corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes e nádegas enfiadas uma na outra

e os olhos, olhos cintilando encantadores, abrindo-se em olhares e abandono,

e os gemidos do movimentos, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,

mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres

até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençois

e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão

e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos e beijos de adeus –

tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida

cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite, fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.

*

Tradução de Claudio Willer, em “Uivo, Kaddish e outros poemas”, coleção L&PM Pocket.

2 Respostas to “Kaddish para Allen Ginsberg”

  1. marcelo noah Says:

    Puxa vida, dividimos essa epifania ginsberguiana, viejo! Sempre recorro ao Rei de Maio nos momentos casulares.

    Em 2006, dia 17 de janeiro pra ser mais exato, passei o dia inteiro, e a noite, percorrendo a cidade e sentindo a língua do AG no meu ouvido. Explico, estava completado 50 anos daquele verso genial do America, tá ligado?

    postei algo no dia, no meu velho blog:

    http://www.navevazia.com/sobrascompletas/2006/01/post.html

    Bah, desde então determinei pra mim que esse era o dia mundial dos $ 2,27. Desde então, nessa data, coloco isso no bolso e saio pra encarar o calendário, com um livro do poeta preso à axila.

    Minha forma de prestar uma prece pro mestere.

  2. Ale Lucchese Says:

    sensacional! vou escrever 2,27 no calendário da geladeira e aguardar ansioso para prestar minha homenagem ao iluminado. É possível até q nos encontremos, e, se isso acontecer, com certeza revezaremos o conteúdo de nossas axilas, e passaremos algum tempo falando desse e de outros girassóis.

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