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Nascidos em Bordéis

janeiro 24, 2008

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Acabei de ver um documentário (na poluída, barulhenta e [sem querer gerar cacofonias] violenta) Porto Alegre, enquanto o pessoal do Pernas roda pelo mundo. Nascidos em Bordéis (Born Into Brothels: Calcutta’s Red Light Kids; 2004) mostra a vida de crianças, filhos de prostitutas, que nascem e crescem em bordéis no bairro da Luz Vermelha, em Calcutá.

Na Índia é grande o número de crianças nessa situação. São elas que fazem as atividades domésticas, morando em pequenas peças que se amontoam em cortiços, tendo que ir brincar no telhado ou na rua quando a mãe tem trabalho. Essas crianças moram no “escritório” da família e não têm acesso à educação. Os pais geralmente são cafetões ou donos do bar em que os clientes bebem antes de ir para cama com as mulheres, quando não as abandonam antes de nascer. Culturas a parte, os direitos humanos devem ser universais e atendidos.

Depois do filme, rolou um debate sobre a prostituição no Brasil com uma cientista social, casada, prostituta por opção e membro da Rede Brasileira de Prostitutas. Coragem e orgulho foram necessários para ela assumir quem realmente é para uma platéia de cerca de 20 pessoas. Que vitória!

A luta pela descriminalização da prostituição segue, mas sabe como é, o Congresso está cada vez mais eclesiástico…(se a maioria é tão santa, como pode haver tanta falcatrua?).

A questão é que a prostituição sempre existiu e seguirá existindo enquando sexo for tão bom quanto é. A própria Rede Brasileira de Prostitutas condena e luta contra a exploração infantil e o tráfico de pessoas. O objetivo da descriminalização é tornar o trabalho sexual uma profissão, regulamentando-a com leis como o registro das prostitutas e exames de saúde obrigatórios, para construir uma legislação que defenda os direitos de todos e não apenas de alguns, já que algumas mulheres, de diversas classes sociais, escolhem a profissão por livre arbítrio, assumindo os riscos e aproveitando o lado positivo – como em qualquer outra atividade.

O fim do preconceito é outra luta destas mulheres. Muitas delas trabalham em cidades diferentes das quais moram para não serem apontadas nas ruas pelo seu ofício. Preconceito e gente mesquinha [pleonasmo] têm em toda parte. A sociedade segue hipócrita, difamando condenando refugando a prostituição como se o sexo não fosse uma das maiores indústrias do mundo.

O Alvo

janeiro 22, 2008

O Jornal ABC, de Novo Hamburgo, publicou, no domingo (20), uma matéria criticando a decisão da Target de veicular um outdoor. Nele uma moça aparece deitada sobre um alvo, vestida com roupas de inverno. O alvo é o logo da marca. No seu centro, as pernas abertas da modelo. “O mínimo que alguns dos críticos disseram é que a imagem mostra as mulheres sendo mais uma vez usadas como alvo com fins sexuais”, diz a matéria.

Na capa da mesma edição, a foto de maior destaque é da “atriz” Juliana Knust. Vestindo apenas a parte de baixo de um biquíni amarelo, os seios escondidos pelos braços. “Título” da matéria: A comida preferida de Juliana. E segue: “A atriz Juliana Knust, intérprete de Débora na novela Duas Caras e uma das novas musas nacionais depois de posar nua ( . . . )”.

Por Deus, há uma enorme discrepância entre o discurso feminista e o papel que as mulheres desempenham hoje. Se diz que a mulher representa uma coisa nova, quando na verdade ela continua tendo aquele velho significado social, determinado por pré-conceitos.Com a liberação dos sexos, a mulher deixou de ser a figura central do ambiente familiar, amante de alcova. Muitas vitórias foram atingidas. Mas também houve perdas. Socialmente o discurso da liberação feminina foi substituído por uma ditadura. A mulher moderna não luta mais por direitos. Agora ela tem que ser gostosona – e fotogênica. E igual a todas as outras. Embora se exija que tenha atitude para ser diferente.

O discurso feminista é recente. Talvez a mulher demore a conquistar de fato o sue espaço. O problema também pode ser cultural. A mulher foi castrada em suas vontades e desejos, para que a sociedade fosse controlável. Assim ela acabou aceitando ser o símbolo da sexualidade recatada, que atrai sexualmente o marido, mas que é assexuada aos olhos dos vizinhos. Hoje a figura feminina é vulgarmente explorada nas páginas dos jornais.

Não encerro a discussão aqui, é evidente. Muitas coisas ainda podem – e devem – ser ditas. Gostaria de chamar a atenção para esse assunto que me incomoda e não faz jus à postura da maioria das mulheres que conheço. É hora de mudar o discurso. Para isso, é preciso discutir. E trocar o alvo dessa seta arcaica.

Caio F.

janeiro 15, 2008

Fiz uma descoberta no final de 2007: Caio Fernando Abreu.

É meio absurdo, pensarão, eu nunca ter lido nada dele antes. Vocês estão com a razão, eu sei. Mas sabem como é, um dia é uma coisa, outro dia é outra. E assim fui postergando. Até que, dia desses, criei vergonha e comprei um pocket dele, Fragmentos.

Fiquei louco com o que li. Aqueles Dois, que conta a história secreta de Raul e Saul, me emocionou – me revoltou, me fez pensar – do início ao fim.

Depois, uma amigona de todas as horas, gringa polenteira, me emprestou Triângulo das Águas, onde os cenários são mais eloqüentes do que os personagens. Aquelas casas de Dodecaedro e O Marinheiro manipulam seus habitantes. É como se as criaturas não passassem de marionetes dentro daqueles espaços claustrofóbicos e apertados demais para suas angústias.

Por fim, para minha felicidade e deleite, alguém muitíssimo especial me deu de Natal o Por onde andará Dulce Veiga. Recomendo mil vezes a saga do jornalista sem nome que procura Dulce Veiga, ídolo de sua juventude. Obviamente que, enquanto percorre o caminho atrás da musa da MPB, o personagem acaba encontrando um desconhecido. Ele mesmo. Dulce Veiga foi adaptado, a pouquinho, para o cinema. Aguardemos sua estréia, que promete.

Mas não se pode ver o contista / romancista apenas como literatura. Caio F. está além. Transcende questões superficiais da sexualidade para atingir algo mais profundo. Algo como a busca da consciência de se ser o que se é.

Meu entusiasmo não cessa. Caio F. foi um homem sensível que percebeu que há muito mais do que a lei de ação e reação nas atitudes humanas. Especular sobre o complexo que cerca a vida de seus personagens é o grande achado do autor.

Por fim, meus caros, recomendo a quem, como eu há bem pouco tempo, não conhece o Caio F. que o leia com urgência. É um exercício cheio de descobertas. Mas o que fica mesmo são muitas indagações. No final, ao menos uma certeza nos resta. Quando se trata de pessoas nada é tão simples quanto aparenta ser. E isso está longe de se restringir apenas à sexualidade.

Paquera

janeiro 7, 2008

 Gente mal começou o ano e o clima de carnaval se instalou. Em 2008 o carnaval é no dia dois de Fevereiro. Oficialmente!! Porque o clima já se faz presente. E clima de carnaval é?? Paquera. Muita paquera!! E os primeiros ensaios das escolas e blocos de carnaval servem de ótimo termômetro. 

 

Paquera no Rio de Janeiro é um exercício comum e diário, mas no verão e no carnaval….Tem quase força de lei – é obrigatório. Quem não faz, participa igual, sendo paquerado. Então, o melhor é deixar de ser sem sal e paquerar também. Vale tudo. Até porque há diferentes tipos de paqueras. Sim!!! 

Ora, há aquelas paqueras inocentes, de simpatia apenas. Aí libera para todo mundo: porteiro, cara da banca, cobrador de ônibus…e até para o mesmo sexo que o seu, portanto vale até a atendente de supermercado mais próximo! É quando ta tudo zen e tu ta em total harmonia com o planeta – não sei como, mas acontece -.

 Há as paqueras de suave malicia…Isto é, a gente só quer testar o nosso poder de sedução, fazer charme, se divertir secretamente…No fundo, não ta a fim de nada com nada, e o pobre coitado que levar a sério, vai correr o risco de chegar e levar um fora merecido que é para deixar de ser carente. 

Depois, temos as paqueras de verdade. Bateu o olho e tu ta!!!!!!!! Isto é, no meio de muito barulho, alto teor alcoólico provavelmente, e muito papo sem nexo, a criatura vê um estranho, ou é apresentada a um amigo de um amigo de uma irmã, e…se encanta!! Olhinho assim, jeitinho ali, cabelo que não sossega, passinhos de dança tímidos…a gente quer chegar…Chamar atenção….mas jurando que NÃO. Muito comum o seguinte dialogo: 

“- Clara tu viu aquele cara lindo? – Eu? Não! Quem? Onde mesmo?Não, não tinha notado.” Mentira, ta de olho grande faz vários sambas!  heheheh 

Os cariocas contam, que na maioria das vezes, o encanto dura até os primeiros raios de sol. Outras boas histórias rendem todo o carnaval, e outras, mais raras ainda voam meses! Todas “causos” divertidíssimos pra contar mais tarde.