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Me traz teu amor - parte 3 de 3

Junho 6, 2008

Última parte da série: leia a anterior aqui.

Eles estavam no escuro, fazendo gostoso, quando o telefone tocou. Harry continuou, mas o telefone também continuou. Era muito incômodo. Logo seu pau ficou mole.

“Merda,” ele disse e rolou para fora. Acendeu a lâmpada e atendeu o telefone.

“Alô?”

Era Gloria. “Você está comendo alguma puta!”

“Gloria, eles deixam você ligar pra fora há essa hora? Eles não te dão um remédio pra dormir ou alguma coisa assim?”

“O que te fez demorar tanto pra atender o telefone?”

“Você nunca deu uma bela cagada? Eu estava no meio de uma das boas, você me pegou no meio de uma das boas.”

“Eu aposto que vou dar uma… Você vai terminar depois que desligar o telefone?”

“Gloria, foi essa sua maldita paranóia que pôs você onde você está.”

“Cabeça-de-peixe, minha paranóia tem sido muitas vezes o presságio de uma verdade se revelando…”

“Escuta, você não está fazendo o mínimo sentido. Dê de presente pra você mesma uma boa dormida. Amanhã vou ver você .”

“Ok, Cabeça-de-peixe, termine sua TREPADA!”

Gloria desligou.

.

Nan usava seu robe, sentada na ponta da cama com um uísque e água na cabeceira. Ela acendeu um cigarro e cruzou as pernas.

“Bom,” ela perguntou, “como está a esposinha?”

Harry entornou o copo e sentou na sua frente.

“Me desculpa, Nan…”

“Desculpa pelo quê, por quem? Por ela ou por mim ou pelo quê?”

Harry engoliu seu trago de uísque. “Não vamos fazer disso uma merda de uma novela mexicana.”

“É? Bom, e você quer fazer disso o quê? Empurrar com a barriga? Quer tentar acabar? Ou então quem sabe entrar no banheiro e se esconder?”

Harry olhou para Nan. “Que merda, não se faça de esperta. Você sabia da situação tanto quanto eu. Foi você que quis continuar!”

“Foi porque eu sabia que, se você não me trouxesse, iria trazer uma puta qualquer!”

“Caralho,” disse Harry, “aquela palavra de novo.”

“Que palavra? Que palavra?” Nan esvazio seu copo e jogou contra a parede.”

Harry caminhou um pouco, ajuntou o copo, encheu novamente, alcançou para Nan e então encheu o seu próprio copo.

Nan olhou para o copo, deu um gole, e colocou na cabeceira. “Eu vou ligar pra ela, eu vou contar tudo pra ela.”

“Só se for no inferno! Ela é uma mulher doente!”

“E você é um filha-da-puta doente!”

E nesse momento o telefone tocou novamente. Ele estava no chão, no centro do quarto, onde Harry tinha deixado. Os dois saltaram da cama em sua direção. No segundo toque os dois alcançaram, cada um agarrando uma ponta fora do gancho. Rolaram e rolaram sobre o tapete, respirando forte, todos braços, pernas e corpos em uma justaposição desesperada, e refletida daquele modo no enorme espelho do teto.

Fim.

Me traz teu amor - parte 2 de 3

Junho 5, 2008

Dando sequência:

Então Harry avistou o Dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O Dr. Jensen veio caminhando sorridente e dizendo, “Muito bem, muito bem, muito bem…”

“Olá, Dr. Jensen.” Gloria falou sem emoção.

“Posso sentar?” perguntou o doutor.

“Certamente,” disse Gloria.

O doutor era um homem pesado. Ele cheirava a peso, responsabilidade e autoridade. Suas sobrancelhas pareciam grossas e pesadas, elas eram grossas e pesadas. Queriam deslizar para dentro da sua boca circular molhada e sumir, mas a vida não queria deixar.

O doutor reparou em Gloria. O doutor reparou em Harry. “Muito bem, muito bem, muito bem,” disse ele. “Eu estou muito satisfeito com o progresso que tivemos até agora…”

“Sim, Dr. Jensen, eu estava justamente falando para Harry como eu me sinto mais estável, como as consultas e as sessões em grupo têm ajudado. Eu perdi muito da minha raiva irracional, da minha frustração constante e da minha auto-piedade destrutiva…”

Gloria sentou com as mãos pousadas no seu colo, sorrindo. O doutor sorriu para Harry. “Gloria tem feito uma recuperação notável!”

“Sim,” disse Harry, “eu percebi.”

“Acho que é uma questão de um pouco mais de tempo e aí Gloria poderá ir com você para casa de novo, Harry.”

“Doutor?” Gloria perguntou. “Posso fumar um cigarro?”

“Ora, é claro,” o doutor falou pegando um maço estranho de cigarros e retirou um. Gloria apanhou o cigarro e o doutor lhe estendeu seu isqueiro banhado a ouro, acendendo-o de um golpe. Gloria inspirou, expirou…

“Você tem belas mãos, Dr. Jensen,” ela disse.

“Ora, obrigado, querida.”

“E uma gentileza que cuida, uma gentileza que cura…”

“Bom, nós fazemos o melhor possível neste velho lugar…” disse gentilmente o Dr. Jensen. “Agora vou pedir licença a vocês dois, eu tenho que falar com alguns outros pacientes.”

Ele livrou facilmente seu corpo volumoso da cadeira e fez caminho até uma mesa onde outra mulher visitava outro homem.

Gloria encarou Harry. “Aquela merda gorda! Ele come no almoço o que a enfermeiras cagam….”

“Gloria, foi maravilhoso ver você mas é um longo percurso até em casa e você precisa descansar. E eu acho que o médico está certo. Eu notei alguma melhora.”

Ela riu. Mas não foi uma risada alegre, foi uma risada teatral, como uma fala memorizada. “Eu não fiz progresso nenhum, na verdade, eu retrocedi…”

“Não é verdade, Gloria…”

Eu sou a paciente, Cabeça-de-peixe. Eu posso fazer um diagnóstico melhor que qualquer pessoa.”

“Que é isso de ‘Cabeça-de-peixe’?”

“Nunca ninguém te disse que você tem uma cabeça que parece um peixe?”

“Não.”

“Na próxima vez que você se barbear, dê uma olhada. E tome cuidado pra não arrancar suas escamas.”

“Eu estou saindo agora… mas vou visitar você de novo, amanhã…”

“Da próxima vez, traga o condutor.”

“Tem certeza que não quer que eu traga nada?”

“Você só está voltando pro hotel pra comer aquela puta!”

“Digamos que eu traga um exemplar da New York? Você gostava da revista…”

“Enfia a New York no teu cu, Cabeça-de-peixe! E enfia em seguida a TIME!”

Harry se estendeu e alcançou a mão com a qual ela bateu no próprio nariz. “Deixe elas juntas, continue tentando. Você vai ficar boa logo…”

Gloria não deu sinal de ter ouvido. Harry levantou-se devagar, virou-se e caminhou em direção à escada. Quando estava no meio do caminho, ele se voltou e fez um pequeno aceno à Gloria. Ela continuou sentada, imóvel.”

.

Eles estavam no escuro, fazendo gostoso, quando o telefone tocou. Harry continuou, mas o telefone continuou. Era muito incômodo. Logo seu pau ficou mole.

“Merda,” ele disse e rolou pra fora. Acendeu a lâmpada e atendeu o telefone.

Continua aqui

Me traz teu amor - parte 1 de 3

Junho 5, 2008

Eles me sacanearam. Mas agora é minha vez. A primeira das três partes de Bring me your love, conto de Charles Bukowski inédito no Brasil, com ilustrações de Robert Crumb. Tradução deste modesto servo que voz fala. Papa fina:

Me traz teu amor

Harry desceu as escadas e deu no jardim. Vários pacientes estavam lá fora. Disseram para ele que sua esposa, Gloria, estava lá. Ele a viu sentada sozinha em uma mesa. Ele se aproximou obliquamente, para um lado e um pouco para o fundo. Ele circundou a mesa e sentou tranversalmente abaixo dela. Gloria sentou bem reta, estava bem pálida. Ela olhou para ele mas não o viu. Então viu:

“Você é o condutor?”

“Condutor do quê?”

“Condutor da verossimilhança”

“Não, não sou.”

Ela estava pálida, seus olhos estavam pálidos, azul pálido.

“Como você está, Gloria?”

Era uma mesa de ferro, pintada de branco, uma mesa que duraria séculos. Havia uma pequeno vaso de flores no centro, flores murchas mortas, penduradas pela tristeza, talos moles.

“Você é um putanheiro, Harry. Você come putas.”

“Isso não é verdade. Gloria.”

“Elas te chupam também? Elas chupam teu pau?”

“Eu ia trazer sua mãe, Gloria, mas ela ficou mal com a gripe.”

“A morcega velha está sempre mal com alguma coisa… Você é o condutor?”

Os outros pacientes sentaram nas mesas ou se escoraram nas árvores ou se esticaram no gramado. Estavam imóveis e silenciosos.

“Como é a comida aqui? Você tem amigos?”

“Péssima. E não. Putanheiro.”

“Você quer alguma coisa pra ler? Quer que eu traga alguma coisa pra ler?”

Gloria não respondeu. Ela então levantou sua mãe direita, olhou para ela, cerrou o punho e socou ela mesma direto no nariz, forte. Harry levantou-se e agarrou ambas as mãos dela. “Gloria, por favor!”

Ela começou a chorar. “Por que você não me traz uns chocolates?”

“Gloria, você me disse que odiava chocolate.”

Suas lágrimas rolaram profusamente. “Eu não odeio chocolate! Eu adoro chocolate!”

“Não chora, Gloria, por favor… Eu vou trazer chocolates, o que você quiser… Escuta, eu aluguei um quarto de hotel a umas duas quadras daqui, só pra ficar perto de você.”

Seus olhos pálidos se dilataram. “Um quarto de hotel: você está lá com alguma vadia. Vocês assistem a filmes pornôs juntos, e tem um espelho enorme no teto!”

“Eu vou estar aqui por uns dias, Gloria,” Harry diz suavemente. “Eu vou trazer tudo o que você quiser”

Me traz teu amor, então,” ela gritou. “Por que caralho você não me traz teu amor?

Alguns pacientes se viraram e olharam.

“Você quer me trazer chocolates? Bem, enfia eles no tu cu.”

Harry tirou um cartão da sua carteira. Era do hotel. Ele entregou a ela.

“Eu só quero te dar isso antes que eu esqueça. Você tem permissão pra ligar pra fora? Me liga se você precisar de qualquer coisa.”

Gloria não respondeu. Ele pegou o cartão e guardou em uma coisinha retangular. Ela então se curvou, tirou um dos sapatos, colocou o cartão no sapato e calçou o sapato novamente.

Então Harry avistou o Dr. Jensen se aproximando pelo gramado. O Dr. Jensen veio caminhando sorridente e dizendo, “Muito bem, muito bem, muito bem…”

“Olá, Dr. Jensen.” Gloria falou sem emoção.

“Posso sentar?” perguntou o doutor.

“Certamente,” disse Gloria.

Continua aqui

Pau no Coelho!

Junho 2, 2008

O homem da imagem acima é odiado por 11 entre 10 intelectuais acadêmicos. Mas em breve esse quadro irá sofrer mudanças drásticas. Estimativas calculam que, em menos de um mês, 32 em cada 10 intelectuais acadêmicos passarão a odiar perdidamente Paulo Coelho. Não se trata apenas de que o mesmo biógrafo de Olga Benário e Assis Chateubriand se debruçou sobre vida do mago até transformá-la em livro. Trata-se também de que ele não tem vergonha de sair dizendo por aí que queimou a rosca em tenra idade.

Sinceridade e uma biografia escrita por Fernando Morais: haja ouvido e paciência para aguentar os queixumes dos doutores de nossa valorosa província nos próximos meses…

Fui lesado!

Maio 28, 2008

Fui lá eu abrir o pacote com uns livros que encomendei há exatamente um mês, feliz que era um pinto no lixo. Tinha comprado três livros que não encontrava por essas bandas, e, carinhosamente lembrando dos leitores do Pernas Abertas, acrecentei mais um que apareceu no site vendedor por casualidade. É essa coisa que você vê aí em cima, um livro do putanheiro Bukowski, ilustrado pelo Crumb. Um texto que não foi traduzido por essas terras, exclusivo pra esses calejados leitores, seria uma preza das melhores. E ainda com o plus a mais de ter a caneta lasciva de Robert Crumb. Botei no carrinho virtual e fui feliz.

Resultado: acabo de descobrir que paguei dez dolares por seis - 06, sim, meia dúzia - de páginas em offset de Bukowski, e cinco desenhos preto e branco - tá, o da capa é colorido - de Crumb. Veja você mesmo a finurinha disso, eles com certeza imprimiram numa máquina de xerox:

Mas enfim, foda-se o tufo! O que continua importando é que a história é do caralho; e, como bom pirata, estarei socializando o continho em alguns dias nessas telas. É nóis!

Pernas abertas para o Tibete

Abril 7, 2008

“…e não pude acreditar nos meus olhos quando quando vi Japhy e Alvah tirando a roupa e jogando as peças para todos os lados e vi que Princess estava nua em pêlo, a pele branca como a neve quando o sol vermelho incide sobre ela ao anoitecer, naquela luminosidade vermelha obscura. ‘Que diabos’, disse eu.

‘Eis o que é yabyum, Smith’, disse Japhy, e sentou-se de pernas cruzadas sobre a almofada no chão e fez um movimento na direção de Princess, que se aproximou e se sentou em cima dele e de frente para ele, abraçando-o pelo pescoço e ficaram assim sem dizer nada durante um tempo. Japhy não estava nem um pouco nervoso nem acanhado e simplesmente ficou lá sentado em em formação perfeita, bem como deveria ficar. ‘É isso que se faz nos templos do Tibete. É uma cerimônia sagrada, é feita desta maneira na presença de monges que entoam cânticos. As pessoas rezam e recitam Om Mani Padme Hum, que significa Amém ao Raio no Vazio Escuro. Eu sou o raio, e Princess é o vazio escuro, percebe?’”

O trecho acima faz parte dos “Os vagabundos Iluminados”, de Jack Kerouac, na tradução de Ana Ban. Está aí só para lembrar que todos aqui nessa casa querem morar no Tibete, transar com Dalai Lama e usar secreções corporais para cessar a combustão da chama olímpica.

O homem que abriu as pernas da América

Março 25, 2008

Gay TaleseEste homenzinho aí do lado um dia disse à mulher que precisava sair, correr os EUA de ponta a ponta, observar, sentir, pesquisar, provar o sexo no país do Mickey Mouse. Ele só retorna nove anos depois, trazendo seu único e mais célebre filho extra-conjugal: A mulher do próximo, o livro que consegue sintetizar um século de vida sexual norte-americana. Lançada nos anos 1980, a obra de Gay Talese foi também uma das primeiras a rever e discutir o impacto da revolução comportamental e sexual das décadas de 1960 e 1970. E acreditem: faz tudo isso com a mesma maestria que um pasteleiro japonês prepara seus pastéis de carne numa lanchonete na beira de uma estrada. A massa de Talese é crocante e leve, já valeria por si só o preço do pastel inteiro, mas o recheio consegue ser ainda mais supreendente, a carne não tem nervos que grudam no meio dos dentes, e ele tem o cuidado de picar a cebolinha bem fina e ralar os ovos para se misturarem na carne. A prosa de Talese é uma experiência alquímica.

Por ocasião do escândalo sexual entre o ex-governador de Nova Iorque, Eliot Spitzer, com a brasileira Ashley “Kristen” Dupre, a Folha de São Paulo publicou uma entrevista por telefone com Gay Talese. AVISO: não perca tempo procurando e leia já a entrevista aqui no Pernas Abertas, pois ela está na ítegra e ainda está toda floreada com fotos da gostosíssima Kristen. Lá vai:

ENTREVISTA da 2ª/GAY TALESE
Nos EUA, os piores presidentes não tiveram amantes

Autor de “A Mulher do Próximo” diz que americano não está mais moralista e que falar de sexo simplifica a política.
DANIEL BERGAMASCO
DE NOVA YORK

GAY TALESE está resfriado. Telefona para o repórter da Folha, atendendo ao pedido deixado na secretária eletrônica, e avisa, raspando a garganta: “Me resfriei e vou viajar, não posso receber você em casa. Mas posso falar agora sobre o Spitzer, tenho poucos minutos”, diz o escritor de 76 anos, um dos pais do jornalismo literário, autor de reportagens antológicas reunidas nas coletâneas “Aos Olhos da Multidão” e “Fama e Anonimato” e de obras como “O Reino e o Poder”, sobre o “The New York Times”, onde atuou como repórter.

Talese diz que a sociedade americana não está mais ou menos moralista desde que ele publicou em 1980 “A Mulher do Próximo”, livro-reportagem que retrata a transformação sexual e moral dos Estados Unidos entre as décadas de 1960 e 1970. Contudo, diz, a mídia repete tanto as informações sobre escândalos sexuais que faz que as pessoas se importem com eles, como no caso do ex-governador de Nova York Eliot Spitzer, que, casado, renunciou no último dia 12 após confirmar que era cliente fiel de uma rede prostituição. Nesse caso, afirma Talese, o escândalo foi bem-vindo. “Não é que ele esteja vivendo uma vida tão diferente de muitas outras pessoas, tendo uma prostituta, uma amante. Mas a diferença é que ele preconizava uma posição de moralidade, ele quis fechar bordéis, e aí aparece que ele era cliente de bordéis. É bom que ele seja exposto”, diz o escritor.

FOLHA - O que mudou no moralismo americano entre “A Mulher do Próximo” e o escândalo sexual do governador Eliot Spitzer?
TALESE - O moralismo não mudou. A mídia mudou.

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FOLHA - De que forma?
TALESE - Quando escrevi “A Mulher do Próximo”, a mídia não discutia tanto infidelidade, não transformava a vida privada das pessoas em colunas de notícias. John Kennedy foi presidente dos Estados Unidos e teve muitos casos, mas ninguém escrevia sobre sua vida sexual. Havia rumores, mas isso nunca foi conhecido, como foi com Bill Clinton, ou agora, com o governador de Nova York, ou com o senador [Larry] Craig, o homossexual [que renunciou após assediar um homem em banheiro de aeroporto, em 2007]. Na França, quando François Mitterrand foi presidente, não havia discussão sobre seu filho ilegítimo. Mas a mídia americana publica hoje sobre qualquer coisa.

FOLHA - Os eleitores levam em conta o comportamento sexual do candidato?
TALESE - Não acho que faz diferença nenhuma desde que não se relacione com seu trabalho. John Kennedy foi um presidente muito bom e tinha amantes. Bob Kennedy, seu irmão, tinha amantes. Eram casados e tinham amantes. Lyndon Johnson tinha amantes. Eisenhower. Todos nossos bons presidentes tinham amantes. O presidente Richard Nixon não tinha amantes e foi um presidente ruim. Esse cara, George W. Bush, é um presidente ruim. E não tem amantes. Entende? Bill Clinton foi muito bom e teve. Os piores presidentes são os que não tiveram amantes. Nixon foi o pior de todos os tempos. E Bush é o segundo pior. Se Bush tivesse amantes, talvez não estaria matando tanta gente no Iraque e tendo essa politica de destruir a vida de tanta gente.

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FOLHA - O senhor quer dizer que, se a vida sexual de Bush fosse menos comportada, seu governo seria melhor?
TALESE - Não digo que seria melhor, mas quando você olha… Os bons presidentes não eram pessoas que se “comportavam” sexualmente. Martin Luther King tinha muitas amantes. Matin Luther King! Nós temos um feriado para ele, ele é um herói nacional. E tinha muitas amantes. Muitas. Ele era um cara mau? Não, não era.

FOLHA - O desrespeito da privacidade dos políticos é sempre ruim?
TALESE - Depende. Não é bom ou ruim. O que você quer dizer com bom ou ruim? Spitzer é um hipócrita, e é bom que ele seja exposto como hipócrita. Não é que ele esteja vivendo uma vida tão diferente de muitas outras pessoas, tendo uma prostituta, uma amante. Mas a diferença é que ele preconizava uma posição de moralidade, ele quis fechar bordéis, e aí aparece que ele era cliente de bordéis. É bom que ele seja exposto. O outro cara que o substituiu [David Paterson] diz que não tem um casamento perfeito. Mas quem tem? Pelo menos ele trouxe um pouco de verdade para o governo. Spitzer é um hipócrita.

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FOLHA - Como repórter, hoje em dia, você publicaria matérias sobre esse escândalo?
TALESE - Não vou dizer que não publicaria, porque, se alguém mais publicar, você tem que publicar. Você não pode fingir que não viu, porque todo mundo sabe sobre isso, está na televisão, nos websites. Se você está no negócio de publicar jornais, tem que publicar o que é considerado notícia. É que hoje em dia tudo é notícia, o que não acontecia 30 anos atrás. É bom ou ruim? Eu não sei. O que acontece é que pelo menos força as pessoas a viverem em coerência com o que dizem.

FOLHA - O sr. avalia mesmo que nada mudou moralmente na sociedade? “A Mulher do Próximo” mostra, por exemplo, a revista “Playboy” como algo chocante e depois mais respeitada, mas hoje em dia a revista é uma instituição americana.
TALESE - Eu mostrava como aquilo mudou naquela época. Nós tivemos mudança real nos anos 1960 e 1970, quando escrevi aquele livro. Pouca coisa mudou desde então. Exceto que a mídia fala mais sobre sexo agora porque há mais liberdade para isso. Mas você não vê pessoas tendo relação sexual com penetração na TV, não ouve certas palavras na TV. Há restrição sobre o que você pode dizer, o que você pode ver. Você não pode ver homem nu na TV mostrando o pênis, não pode. No Brasil também não pode, tenho certeza.

Kristen4

FOLHA - Mas, se a mídia muda, a percepção da sociedade não muda juntamente com ela?
TALESE - Eu acho que a mídia mantém a história viva. Quando Bill Clinton teve uma pequena vida sexual com Monica Lewinsky, isso não tinha nada a ver com o trabalho dele como presidente. Não ocupou muito tempo dele. Mas a mídia fez uma história enorme, e aí as pessoas começam a se importar. Lembra que o papa João Paulo 2º estava visitando [Fidel] Castro naquela época? Ele estava indo para Havana e toda a mídia estava lá para cobrir o papa. Quando houve o rumor de que o presidente Clinton teve esse pequeno caso sexual no Salão Oval, todo mundo deixou Havana. Toda a mídia foi embora. E o papa não tinha com quem falar. Não havia cobertura de Castro encontrando o papa. A mentalidade da mídia está toda voltada para escândalos sexuais. A mídia conduz a história.

FOLHA - Por quê?
TALESE - Sexo não é complicado. Política é complicado. Na campanha, veja, as pessoas não ligam para propostas. Elas gostam de histórias simples, escandalosas, com o mais baixo, o menor denominador comum. E a mídia provê isso. A mídia é que conduz a história.

Kristen5

FOLHA - Mas por que o governador renunciou, se as pessoas não se importam tanto assim?
TALESE - A mídia faz as pessoas se importarem, porque repete, repete, repete e repete a história. Fica batendo até a morte. A mídia quer manter a história. Acho que é bom que Spitizer tenha sido exposto como hipócrita, porque é. Já Bush não é um hipócrita sexual, mas é hipócrita em várias outras formas.

FOLHA - Em que formas?
TALESE - Ele diz que estamos tentando levar democracia para o mundo. E não estamos. Estamos invadindo o mundo, forçando eles [outros países] a se ajustarem a nossa política. A administração de Bush critica os chineses em direitos humanos, e nós invadimos os países de outras pessoas e levamos atrocidades para esses países. Não estamos em uma posição em que podemos dizer que somos melhores que os outros. Somos piores, de certo modo.

 

Kristen6
Fonte: Folha de São Paulo de ontem
Fotos: saíram originalmente no New York Post, foram encontradas - muito mais dificilmente do que eu pensava - na rede.