Arquivo da categoria ‘Poesia’

sobre iluminações e o caralho a quatro

Maio 6, 2008

Quando a barra dos favoritos aparece piscando, e você pensa “eu ainda quero, mas não desse jeito”, é hora de mandar todo mundo se foder e fazer do jeito que for. E se a droga que me chapa agora é essa, é essa que eu vou colocar na roda. Então segue um poema dum cara que anda me chapando muito, um cara parecido mas completamente diferente de tudo que falei aqui. Gary Snyder é o filho mais iluminado da geração beat, e, em última análise, o mais rebelde: que caiu fora da terra dos irmãos e foi ter treinamento durante seis anos num templo budista, voltou e se enfiou numa fazendinha da Califórnia pra ter a vida mais natural que podia. É com um poema dele que eu vos deixo, com o retorno à terra, àquele seio que de onde saímos. Não tem ninguém berrando ali, mas, acreditem, é aterrador como um uivo.

.

Depois do trabalho

A cabana e algumas árvores

pairam na névoa que sopra

.

Eu tiro sua blusa

e aqueço minhas mãos frias

nos seus seios

você ri e estremece

descascando alho junto ao

calor do fogão.

recolho o machado, o ancinho,

a lenha

.

nos encostaremos na parede

um contra o outro

um guisado cozinha devagar no fogo

enquanto anoitece

bebendo vinho.

.

da coletânea de Gary Snyder re-habitar: ensaios e poemas, traduzido por Luci Collin

Kaddish para Allen Ginsberg

Abril 6, 2008

Volta e meia encontro com alguma coisa que - pah - me faz voltar a Allen Ginsberg. E assim faço, e o devoro por horas e horas, como aconteceu nesse domingo. A impulso de publicar aqui alguma coisa sua foi tão gigantesco que saí imediatamente procurando desculpas. Não demorou nada e encontrei: ontem o mundo fechou onze anos sem Ginsberg. Segue nossa homenagem, poema resultado das vivências com Neal Cassady, o mais macho e inflamável de todos os beats, e que mesmo assim foi imediatamente seduzido pelo poeta. Uma semana e uma vida inteira com muita poesia a todos:

Poema de amor sobre um tema de Whitman

Entrarei silencioso no quarto de dormir e me deitarei entre noivo e noiva,

esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto,

braços pousados sobre os olhos na escuridão,

afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei sua pele

e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e abrirei e mostrarei seu traseiro,

pernas erguidas e dobradas para receber, caralho atormentado na escuridão, atacando

levantado do buraco até a cabeça pulsante,

corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes e nádegas enfiadas uma na outra

e os olhos, olhos cintilando encantadores, abrindo-se em olhares e abandono,

e os gemidos do movimentos, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,

mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres

até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençois

e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão

e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos e beijos de adeus -

tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida

cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite, fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.

*

Tradução de Claudio Willer, em “Uivo, Kaddish e outros poemas”, coleção L&PM Pocket.

Enemigos íntimos

Fevereiro 14, 2008

2008 marca os dez anos do álbum Enemigos íntimos, primeiro e último trabalho conjunto de dois dos maiores trovadores da língua hispânica. Todos conhecem o argentino e chapliniano Fito Páez, já a história de Joaquín Sabina não é tão popular. Filho único de Rocco Sifredi, Bob Dylan, Leonard Cohen, Frank Sinatra, Diego Maradona e Francisco Couco; Sabina nasceu na Espanha e aos seis anos de idade já tinha comido todas as mulheres de seus progenitores, fez a mala e se transformou no maior cantautor jamais visto.

Não é preciso dizer que o resultado do trabalho em conjunto resultou em um discaço, cheio de pérolas musicais e poéticas. Como o próprio Sabina definiu, foi um disco feito em boliches e não em conservatórios, um disco nu, enfim, um verdadeiro disco de rocanrol. O fim da história, parece ter sido também intenso: segundo consta, os egos em conflito geraram muito mais inimizade do que intimidade, não houve nenhuma apresentação ao vivo, e apenas um clipe - aquela obra de arte ali em cima, é só apertar play. Dez anos depois, nada de Sabina e Páez cogitarem a hipótese de tocar juntos novamente, mas fica esse disco sensacional, esse clipe com destaque para o piano-aquário de Fito, e letras de amor e guerra com essa:

Y, al final, sale un sol
incapaz de curar
las heridas de la ciudad,
Y se acostumbra el corazón
a olvidar.

Dormir contigo es estar solo dos veces,
es la soledad al cuadrado,
todos los sábados son martes y trece,
todo el año llueve sobre mojado
Bla, bla, bla, bla, bla, bla, bla.

Fodelança total

Novembro 6, 2007

O trânsito de Porto Alegre ainda enfrenta problemas desde que a avenida Osvaldo Aranha passou a desembocar em Buenos Aires e a Zil Vídeo se transformou no último reduto literário do Rio Grande do Sul. No centro do engarrafamento, não poderia deixar de estar a banda Fogo na Franja, distribuindo bolachas-maria e cusparadas para os desavisados. “Sexo brutal, poesia sem limite”, esse é o paradigma dialético que tem invadido o cancioneiro popular desta capital, que ainda assiste atônita ao balé dos calcanhares resistentes ao modo de caminhar pelo avesso.

E a primeira bolacha é justamente aquela que está logo ali em cima, entre o título e o primeiro parágrafo, caro leitor do Pernas Abertas. Mesmo desfalcado de Maestro Vargas e Carlos Back, o vídeo de Fabiano Gummo é uma ilustração de um anti-lual organizado pelo projeto Nave Vazia, que contou com os integrantes Fabio Godoh, Caco Pinto, Marcio Amigão e Marcelo Noah. Esta performance do Fogo na Franja é fundamental na definição dos rumos do estrategismo sexual na canção-popular-sul-pós-contemporânea, onde “a estética do frio perde o lugar para a estética do cio”, como pontua o cantor e compositor Fabio Godoh. Ele ainda adverte que “Estética do cio” será nome do primeiro disco da banda, com lançamento agendado para programa dominical de Diego Maradona.

Sexo Sem Idade

Setembro 19, 2007

A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos

 

 

Este poema é do Carlos Drummond de Andrade. A imagem que ficou dele é clássica: velhinho com uma cara simpática, magro, com óculos grandes que se não fossem pelas suas orelhas suntosas cairiam do rosto. Apesar da imagem de avô, ele também era chegado na coisa. Desde 1970, Drummond escreveu poemas eróticos que, a seu pedido, foram publicados após a sua morte. O livro, publicado em 1992, não poderia ter outro nome: O Amor Natural. Concordamos com ele: nada mais natural do que sexo.

Mais Poesia - Allen Ginsberg

Agosto 25, 2007

Allen Ginsberg e Peter OrlovskyAllen Ginsberg e Peter Orlovsky

Judeu, viado, chegadaço em substâncias ilegais, e poeta. Entre ouvir falar em Allen Ginsberg e transformá-lo em um exemplo quimérico de paudurescência a ser seguido não me demorou nem trinta segundos. Nos anos oitenta, de quando data essa foto - ele é o da esquerda -, desafiado por um jovem, Allen ficou nu durante a leitura de um poema para uma platéia de acadêmicos. “Ser poeta é estar nu”, resumiu o velho aquela noite. E é mesmo. Mais que isso, é levar a poesia pra fora dos livros, é saber que mostrar a piça na hora certa vale muito mais que bibliotecas inteiras.

Quando chegamos ao acordo de fazer um blog sobre sexo, saquei na hora Allen tinha que estar logo nos primeiros posts. E foi justo esse trecho que transcrevo abaixo que me veio em mente. Canção foi escrito há 50 anos, é um dos mais líricos de Ginsberg, geralmente mais porraloca e anáquico. Exemplo da busca pelo amor que vai tão fundo na carne que consegue transcendê-la. Segue apenas um trechinho, porque já escrevi demais prum blog:

(…)

os corpos quentes

brilham juntos

na ecuridão,

a mão se move

para o centro

da carne ,

a pele treme

na felicidade

e a alma sobe

feliz até o olho -

(…)

Delírio (Olavo Bilac)

Agosto 24, 2007

151.jpg

Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem! - num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
- Mais abaixo, meu bem! - disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci…

[ Olavo Bilac ]