sobre iluminações e o caralho a quatro
Maio 6, 2008Quando a barra dos favoritos aparece piscando, e você pensa “eu ainda quero, mas não desse jeito”, é hora de mandar todo mundo se foder e fazer do jeito que for. E se a droga que me chapa agora é essa, é essa que eu vou colocar na roda. Então segue um poema dum cara que anda me chapando muito, um cara parecido mas completamente diferente de tudo que falei aqui. Gary Snyder é o filho mais iluminado da geração beat, e, em última análise, o mais rebelde: que caiu fora da terra dos irmãos e foi ter treinamento durante seis anos num templo budista, voltou e se enfiou numa fazendinha da Califórnia pra ter a vida mais natural que podia. É com um poema dele que eu vos deixo, com o retorno à terra, àquele seio que de onde saímos. Não tem ninguém berrando ali, mas, acreditem, é aterrador como um uivo.
.
Depois do trabalho
A cabana e algumas árvores
pairam na névoa que sopra
.
Eu tiro sua blusa
e aqueço minhas mãos frias
nos seus seios
você ri e estremece
descascando alho junto ao
calor do fogão.
recolho o machado, o ancinho,
a lenha
.
nos encostaremos na parede
um contra o outro
um guisado cozinha devagar no fogo
enquanto anoitece
bebendo vinho.
.
da coletânea de Gary Snyder re-habitar: ensaios e poemas, traduzido por Luci Collin

