Volta e meia encontro com alguma coisa que - pah - me faz voltar a Allen Ginsberg. E assim faço, e o devoro por horas e horas, como aconteceu nesse domingo. A impulso de publicar aqui alguma coisa sua foi tão gigantesco que saí imediatamente procurando desculpas. Não demorou nada e encontrei: ontem o mundo fechou onze anos sem Ginsberg. Segue nossa homenagem, poema resultado das vivências com Neal Cassady, o mais macho e inflamável de todos os beats, e que mesmo assim foi imediatamente seduzido pelo poeta. Uma semana e uma vida inteira com muita poesia a todos:
Poema de amor sobre um tema de Whitman
Entrarei silencioso no quarto de dormir e me deitarei entre noivo e noiva,
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto,
braços pousados sobre os olhos na escuridão,
afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei sua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e abrirei e mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber, caralho atormentado na escuridão, atacando
levantado do buraco até a cabeça pulsante,
corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes e nádegas enfiadas uma na outra
e os olhos, olhos cintilando encantadores, abrindo-se em olhares e abandono,
e os gemidos do movimentos, vozes, mãos no ar, mãos entre as coxas,
mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençois
e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos e beijos de adeus -
tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite, fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.
*
Tradução de Claudio Willer, em “Uivo, Kaddish e outros poemas”, coleção L&PM Pocket.